O Orgulhoso 2

A noite já ia embora e, pelas ruas escuras da cidade, via-se apenas alguns poucos carros passando apressados.

Ao longe, podia-se ouvir o latido de cães vadios e, com um pouco mais de atenção, também os gemidos dos moradores de rua, devido ao frio que fazia e da fome que certamente enfrentavam noite após noite.

Vez ou outra, algum bêbado ou drogado também podia ser visto cambaleando e caindo logo em seguida pelos cantos escuros.

Nessa noite, um rapaz voltava de uma festa, acompanhado pela namorada, quando, ao dobrar uma esquina e entrar em uma rua pessimamente iluminada, quase bateu de frente em um carro que saía apressado da entrada de um beco.

Após o susto e das reclamações da namorada, percebeu o farol clarear algo estranho bem próximo do local de onde aquele carro saiu.

Apesar do cansaço, a curiosidade dos jovens acabou falando mais alto e o rapaz diminuiu a velocidade para ver o que estava ali.

O poste, bem naquele momento, acendeu, revelando algo que, a princípio, parecia apenas um amontoado de lixo, porém, ao prestar um pouco de atenção, a face de ambos mudou repentinamente, culminando no grito de horror da jovem ao entender o que estava naquele canto.

Bem diante dos seus olhos havia um corpo esquartejado, com as partes dispostas de maneira bizarra.

Quando a polícia chegou, o encarregado da investigação era o detetive Carlos Albuquerque, que logo que vislumbrou a cena sentiu-se enojado. Mesmo com tantos aos de serviço e tendo presenciado cenas semelhantes, algo de familiar ali também o fez sentir algo que ele ainda não sabia identificar.

Havia, bem à sua frente, o tronco de uma jovem loira, em trajes sugestivos, com a cabeça disposta ao lado do tronco e envolta por ambos os braços colocados em sequência um ao outro, uma vez que o braço direito, a exemplo da cabeça, havia sido separado do restante do corpo, formando um desenho semelhante a um olho.

Esse desenho parecia uma ironia, pois a jovem teve os olhos arrancados e via-se apenas a órbitas vazias com o sangue que de lá escorreu marcando toda a sua face.

Além de tudo, percebia-se também que, em ambas as mãos, o dedo anelar fora cortado.

O assistente do investigador, Jorge Mendonça, mais conhecido pelo sobrenome, teve que vomitar numa lixeira após testemunhar aquilo.

A cena era terrível de qualquer forma.

Enquanto alguns peritos procuravam alguma pista do assassino, Albuquerque e Mendonça  foram conversar com o casal que encontrou o corpo.

Muito abalados, ainda em estão de choque, nenhum dos dois conseguia responder às perguntas que os detetives faziam.

E, devido à escuridão da noite, os faróis altos no rosto, o cansaço e o susto, também não puderam descrever o carro que deixou o lugar, quase batendo neles.

Logo que percebeu que não conseguiria coisa alguma ali, Albuquerque se afastou, pegando um maço de cigarros no bolso da camisa.

-Acha que ele voltou? – perguntou Mendonça, que vinha logo atrás de Albuquerque, ao se aproximar do investigador, que já fumava, encostado no poste.

Após uma tragada profunda, Carlos virou-se para o assistente com uma expressão triste no olhar que, havia muito tempo, Mendonça não via no amigo.

Afinal de contas, já havia passado cerca de dez anos desde aquela noite tenebrosa e que agora parecia ainda mais nítida na memória do investigador.

Será que aquele a quem Albuquerque cassou durante esses anos todos, sem obter sucesso e chegando quase a acreditar que o próprio demônio já havia reclamado a alma, estava novamente na ativa?

-Temo que sim. – respondeu Albuquerque.

-Mas não teria sido uma coincidência ou algum imitador?

Virando-se para o local onde os peritos trabalhavam, o investigador apontou e disse:

-Olhe bem para isso. O padrão é o mesmo e com todos os detalhes… O mesmo maldito estilo.

O detetive lembrava-se bem dos detalhes, principalmente porque as imagens nunca sumiram da sua mente.

-Veja isso: certamente ela era uma garota de programa que foi atacada pelas costas e estrangulada com um fio de nylon – o investigador apontava os postes sem luz e os prédios abandonados próximos daquele lugar. -Ele deve ter se aproveitado a escuridão dessa rua e do fato de não haver câmeras de segurança por aqui.

Novamente o detetive levou o cigarro à boca, enquanto Mendonça assimilava cada uma daquelas palavras.

-Depois, ele deve ter cortado o pescoço dela usando uma lâmina bastante afiada, terminando de arrancar a cabeça usando as próprias mãos – retomou o detetive.

-Me dá até um arrepio só de imaginar essa cena – comentou Mendonça sacudindo a cabeça, como se tentasse simplesmente apagar aquele pensamento.

-Sim… -Albuquerque respirou fundo, reaproximando-se de onde o corpo, agora coberto por um lençol, antes branco, mas que já se encontrava com várias manchas de sangue. -Veja, depois de retirar a cabeça, eu acredito, usando alguma ferramenta afiada, faca, ou coisa do tipo, ele arrancou os olhos da menina. Azuis, eu suponho – ele foi se movimentando, seguido pelo assistente, circulando o local. -Em seguida, como um açougueiro, decepou o braço direito dela, mas sem se esquecer dos dois dedos anelares…

-É bizarro… Um horror de se ver… – Mendonça comentou, imaginando a dor que devia ser para o amigo recordar tudo o que aconteceu numa fatídica noite de junho, em 2003…

-Para completar a cena, o assassino dispôs as partes do corpo para formar sua marca registrada.

-O olho…

-E com o sangue, desenha um Olho de Hórus…

Mendonça apenas fez sinal com a cabeça, concordando.

-E eles não vão achar digitais. Nunca acharam em qualquer um daqueles doze homicídios… Nenhuma pista concreta…

Mendonça, esticando o pescoço por sobre o ombro de um policial à sua frente, tentava observar o trabalho dos peritos, foi dizendo:

-Parece que ele ainda se inspira no Jack, o estripador…

Albuquerque lançou um olhar fulminante sobre o assistente, que completou:

-Essa mania de atacar prostitutas… É bom avisar para essas meninas tomarem cuidado.

-É um assassino, Mendonça. Todos têm que se precaver.

-Mas ele só mata prostitutas loiras, né?

Albuquerque já estava sem paciência.

-Você já se esqueceu, então?

O assistente ficou envergonhado por conta das próprias palavras. Elas haviam ofendido Carlos.

-Ok, eu sei que ele já fugiu do padrão antes…

Agora foi a vez do investigador sacudir a cabeça, em sinal de que concordava.

-Mudou justamente quando matou aquela dentista, morena, que havia acabado de sair do consultório e ia a caminho da casa dos pais, para seu jantar de aniversário, com o pai, a mãe, o filho e o irmão…

Mendonça pôs a mão sobre o ombro do amigo, em sinal de apoio, e percebeu uma lágrima escorrer pelo rosto de Albuquerque.

-Agora você pode ter a sua vingança – disse ele.

-É… – o investigador baixou a cabeça. -Você esta certo. Eu vou pegar esse desgraçado.

-Sim, nós vamos – completou Mendonça, dando três tapinhas nas costas do amigo, afastando-se em seguida, voltando em direção ao carro para buscar alguma coisa.

Vendo-se sozinho, Albuquerque foi para perto de um poste e se encostou novamente, fumando, olhando em direção ao local onde os peritos trabalhavam.

Em um certo momento, ele baixou a cabeça, deu uma tragada profunda e, enquanto expulsava a fumaça dos seus pulmões, olhou para o céu que começava a mudar de cor. Mais um dia estava raiando…

Nesse momento ele fez um juramento para si mesmo. Aliás, refez.

Era o mesmo juramento que havia feito dez anos atrás. Aquilo era pessoal.

-Sarah, eu juro que eu vou pegar o canalha que fez aquela barbaridade com você e ele vai pagar… E pagará muito caro!

Dando uma última tragada e jogando a guimba fora, olhou outra vez para o céu e completou:

-Eu juro por esse sol que insiste em nascer. Eu te juro, minha irmã…

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