O sol vinha surgindo tímido em meio aos prédios da cidade quando a imprensa começou a aparecer.

A manchete dos telejornais seria sobre a volta do assassino apelidado de “Hórus” devido à marca que sempre deixava na cena do crime.

Durante um período de dez anos ele manteve-se inativo, ou pelo menos sem que qualquer novo crime fosse a ele atribuído.

Albuquerque estava transtornado com aquele repentino acontecimento. E isso lhe trouxera uma série de lembranças que ele certamente gostaria de esquecer.

Sim, ele, estava perdido em pensamentos mesmo enquanto procurava qualquer pista que pudesse levar ao autor daquela atrocidade.

Mendonça, seu assistente e amigo de tantos anos olhava para ele tentando entender o que realmente passou pela cabeça do velho amigo ao rever aquela cena que, há alguns anos, lhe fora imposta diante dos olhos tendo como vítima alguém que ele tanto amava.

E sim, Albuquerque lembrava-se das últimas conversas com sua irmã, da alegria dela por ter finalmente vencido na vida e ter conquistado alguma estabilidade.

Lembrava-se também da angustia pela espera da irmã que não chegava em casa e não atendia ao telefone.

Ela não costumava de se atrasar. Ainda mais para seu jantar de aniversário com a família.

Sarah, a irmã do detetive Albuquerque, apesar de ter ainda seus vinte e oito anos, aliás, completava vinte e nove anos naquele dia, já era uma jovem viúva.

Seu marido faleceu devido a um acidente na volta das férias na praia.

Além dele, Sarah e seu filho Matheus, na época com pouco mais de um ano também estavam no veículo quando surgiu um caminhão vindo na contramão em uma curva acentuada.

Para não bater de frente, o marido dela, Cláudio, desviou rapidamente para o outro lado, vindo a despencar de uma ribanceira e se chocando de frente a uma árvore.Ele, que era o único no veículo sem cinto de segurança, acabou sendo lançado contra o painel do veículo.

Todos foram socorridos, mas Cláudio não resistiu e acabou morrendo pouco depois de chegar ao hospital.

Depois de ter superado o trauma da perda repentina do marido, Sarah dedicou-se a criar o filho e também à sua profissão de dentista, que tanto adorava.

Albuquerque acabou se deixando levar pelas lembranças durante algum tempo…

E ao olhar novamente para o local onde o crime que agora investigava havia ocorrido, só conseguia sentir o ódio correndo pelas suas veias.

– Quando eu encontrar esse maldito, ele vai pagar… – sussurrou para si mesmo.

Albuquerque decidiu que era hora de buscar seus velhos registros e anotações, e confrontar com aquilo que Mendonça e a equipe do local haviam encontrado. Se é que haviam encontrado algo dessa vez.

Ele duvidava.

– Carlos, veja isto. – Mendonça se aproximava com algo na mão.

– O que foi? – perguntou Albuquerque ao ser tirado de seus pensamentos…

– Me diga o que acha disso aqui… – o assistente lhe estendeu algo que parecia um pingente dentro de um saco plástico, uma evidência encontrada na cena.

– Um pingente? – disse ele.

– Sim, mas veja o que tem atrás dele. – Mendonça virou o pingente com cuidado. – Há uma gravação atrás dele, com uns símbolos estranhos.

– Deixe-me ver isso… – disse ele, agora interessado naquela pequena pista.

Albuquerque examinava com cuidado aquela peça e a gravação incomum que havia na parte de trás dela.

O pingente era pequeno, dourado, e estava gasto, um pouco sujo e, não fosse pelas estranhas marcações, seria apenas mais um entulho insignificante num beco sujo e fétido.

– Acho que já vi algo parecido antes, Mendonça. – comentou Albuquerque olhando para o assistente como se tivesse caído em si sobre o que aquilo significava.

– Sabe o que significa? – quis saber o assistente.

– Ainda não sei, mas me lembro que quando estávamos investigando aquele caso dos ataques contra negros e gays demos de cara com alguns símbolos parecidos… – lembrava-se Albuquerque. – Se não estou enganado, esses símbolos eram desenhados próximos aos corpos das vítimas…

– Não estou me lembrando…

– Sim, é isso… – Albuquerque acreditava que haviam encontrado uma pista. – Agora é hora de irmos visitar alguns velhos conhecidos, meu amigo… Tire uma boa foto disto aqui e vamos ao trabalho.

O Orgulhoso - pingente

– E quanto a esse local?

– Depois verificamos com os peritos o que conseguiram sobre esta moça… Além do mais, aquele casal estava assustado demais para dar qualquer informação realmente relevante e fora do óbvio…

– O que sugere então? Por onde começamos?

– Você vai até o escritório e dá uma olhada nos arquivos que temos sobre o Hórus.

– Certo. E você?

– Vou comer alguma coisa e fazer uma visitinha a uma velha conhecida… – disse Albuquerque, acendendo um outro cigarro e dirigindo-se ao carro. – Venha, vou lhe dar uma carona…

– Obrigado pela gentileza. – ironizou Mendonça.

– Esse vai ser um dia bem longo…

Eles saíram pela cidade em direção ao escritório, no centro.

Havia muito a ser feito e tinham um caminho que poderia não dar em nada, ou ser o começo da queda de Hórus…

E o sol começava apenas a queimar lentamente, rumando para o centro do céu…

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